Escola de Fotógrafos Populares

O objetivo que norteia o trabalho da Escola de Fotógrafos Populares vai além de iniciar jovens no ofício da fotografia e articular seu ingresso no mercado de trabalho. O foco crítico consiste em formar documentaristas fotográficos capazes de desenvolver um trabalho de registro dos espaços populares, re-visitando a história de suas comunidades e estimulando a afirmação de seus vínculos identitários, assim como a legitimação de suas trajetórias de vida no espaço mais amplo da cidade.
O espírito de descoberta que caracteriza o fazer fotográfico, marcado pelo reconhecimento de valores e pela identificação ideológica com o fotografado, também é contemplado ao longo do curso, através do registro fotográfico e de palestras com “personagens” da comunidade, que detêm um saber diferenciado e se dispõem a dividi-lo com os alunos. Busca-se, assim, materializar uma fotografia engajada e solidária, capaz de denunciar as dificuldades das populações economicamente excluídas, sem deixar de destacar sua altivez, sensualidade e beleza. Parte-se, aqui, do pressuposto que a identificação e a busca por uma sociedade plural, fraterna e solidária passa pelo ato de exercitar um olhar cúmplice sobre os que enfrentam dificuldades de toda ordem, imersos em um cotidiano marcado por adversidades, porém, rico em criatividade e ações solidárias. Dessa forma, acreditamos que a troca recíproca de conhecimentos se transforme em terreno fértil para a consolidação da auto-estima de jovens de comunidades populares, potencializando seus talentos e auxiliando-os no seu auto-conhecimento.
Portanto, o programa de aulas oferece acesso a discussões temáticas que abrangem desde a questão da construção do olhar e do uso da linguagem fotográfica como forma de percepção e expressão ideológica de conceitos até a análise de trabalhos que fundaram as noções de foto documental e fotojornalismo e como a dimensão ética se impõe sobre a produção fotográfica contemporânea.
A Escola de Fotógrafos iniciou suas atividades em maio de 2004, com aulas diárias, realizadas todas as manhãs, de 08:30 às 12:30h, na Casa de Cultura da Maré em um espaço cedido pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré - CEASM. Foram quatro meses de curso intensivo, totalizando 320 horas/aula voltadas para a formação em documentação fotográfica, edição, digitalização e arquivamento digital. Esta primeira turma, com vinte e dois alunos, de idades entre 18 e 40 anos, contou com o apoio de FURNAS Centrais Elétricas; os alunos formados neste primeiro momento eram residentes de comunidades populares nas proximidades da Maré, onde possuíam vínculo com diferentes instituições locais (ONGs, cursos pré-vestibulares e outras). Assim, a inserção profissional dos mesmos tornou-se mais ágil, visto que, após o curso, continuaram trabalhando em projetos desenvolvidos por essas instituições. Nesta época, muitos alunos já começaram a realizar registros fotográficos remunerados.
No início de 2006, a Escola de Fotógrafos Populares ampliou seus horizontes graças ao apoio do Unicef, que permitiu a aquisição de câmeras digitais profissionais, filmes e computadores equipados para o tratamento de imagem. Desde então, o curso teve sua carga horária ampliada para 540 horas e passou a ser freqüentado por fotógrafos de outras comunidades populares do Rio de Janeiro e Niterói (ex.: Preventório, Cidade de Deus, Queimados, Complexo do Alemão e outras), além de estudantes universitários de outras áreas da cidade, sendo acolhido pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal Fluminense, que forneceu diplomas aos formandos de 2006 e 2007.
O conteúdo programático da Escola foi aperfeiçoado para viabilizar o desenvolvimento de uma produção fotográfica a um só tempo autoral e crítica, que capacite os alunos a registrar e difundir práticas cotidianas presentes em suas comunidades de origem, produzindo uma cobertura fotográfica para além dos limites que, por razões diversas, se fazem presentes em veículos da grande mídia.
Desta forma, os participantes da segunda turma da Escola (ano letivo de 2006) tiveram quatro horas diárias de aulas (manhãs de segunda à sexta-feira), além de aulas práticas de Fotografia (último final de semana de cada mês) e aulas opcionais à tarde, destinadas à organização dos respectivos portfolios eletrônicos. O programa foi contemplado através do oferecimento de três módulos de 180 horas/aula cada: Linguagem Fotográfica, Informática Aplicada à Fotografia e Fotojornalismo.
O suporte pedagógico ficou a cargo dos coordenadores da Escola João Roberto Ripper e Dante Gastaldoni, que se revezaram nas aulas expositivas e práticas, auxiliados por três professores permanentes e por um grupo de palestrantes convidados, selecionados em um universo de conceituados fotógrafos, técnicos e pesquisadores. O corpo de professores permanentes foi composto por Daniel Araújo (Noções Básicas de Informática); Évlen Bispo (Tratamento de Imagens em Photoshop) e Ricardo Funari (Gerenciamento de Bancos de Imagem em Portfolio). O trabalho conjunto desses três professores, cada um deles responsável por 60 horas/aula, constitui o módulo Informática Aplicada à Fotografia, que pretendeu garantir aos alunos o expertise necessário para atualização e manutenção do Banco de Imagens e da Agência de Fotografia Imagens do Povo, que tem atendido a clientes externos, seja na venda de fotos avulsas, seja na execução de pautas encomendadas. As pautas fotográficas executas pelos alunos por solicitação de clientes ou em seus próprios ensaios temáticos, têm sido fruto de posterior edição pelos coordenadores, garantindo a ampliação do acervo do Imagens do Povo. A Escola de Fotógrafos teve 23 alunos formados em 2007 e 22 em 2008.
Devido ao intercâmbio entre os três eixos do projeto (Escola, Agência Fotográfica e Banco de Imagens), o material produzido pelos alunos ao longo do curso sobre diversos temas – tais como esporte, diversão, o trabalho no universo feminino, religiosidade, diferentes práticas culturais e esportivas locais, escolas, grupos de dança, grupos de teatro, trabalho infantil, aspectos arquitetônicos de favelas, becos, vielas, dentre outros – vêm, aos poucos, sendo incluídos no Banco de Imagens, disponibilizado através da Agência-Escola. Com patrocínio do UNESCO / Programa Criança Esperança em 2007, a Escola formou sua terceira turma em abril de 2008.
Incorporado à Escola em 2007, o curso de Fotografia Artesanal (Pinhole), passou a atender crianças e adolescentes de comunidades populares da Maré, com objetivo de despertar o gosto pela arte através da fotografia artesanal e estimular, através do olhar, o sentimento de identidade com aspectos relacionados à vida em suas comunidades de origem e à diversidade cultural que elas abrigam.
MÓDULO 1: Linguagem Fotográfica - A ementa do primeiro módulo do curso prevê quatro unidades com a discussão temática dos seguintes aspectos: Breve histórico da fotografia; “Anatomia” de uma câmera fotográfica; Os sistemas de controle de uma máquina fotográfica (foco, obturador e diafragma); Características técnicas e estéticas das objetivas (grande angular, normal, tele, zoom e macro); Sensibilidade, poder de resolução e ruído, respectivamente nos filmes e CCDs.
UNIDADE I
BREVE HISTÓRICO DA FOTOGRAFIA
1. O princípio da câmara escura.
2. O impacto da descoberta atribuída a Daguerre.
3. A “anatomia” do aparelho fotográfico.
4. Câmeras fixas e intercambiáveis.
5. O sistema paralaxe e o sistema reflex.
6. Nomenclatura técnica básica.
UNIDADE II
SISTEMAS DE CONTROLE EM UMA CÂMERA FOTOGRÁFICA
1. Os sistemas de focalização.
2. Os sistemas de fotometragem.
3. O diafragma e a profundidade de campo.
4. O obturador e a nitidez do movimento.
5. O conceito de “panning.”
UNIDADE III
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS E ESTÉTICAS DAS OBJETIVAS
NAS CÂMERAS DE PELÍCULA E DIGITAIS
1. A objetiva normal.
2. A teleobjetiva.
3. A grande angular.
4. A zoom.
5. A macro.
6. Uma introdução à imagem digital.
7. A variação da distância focal em função dos CCDs.
UNIDADE IV
SOBRE LUZ, GRÃOS E PIXELS
1. O filme PB e o sistema zonal.
2. Distinções entre formatos de filmes e megapixels.
3. Sensibilidade e poder de resolução nas câmeras de película.
4. Sensibilidade e ruído nas câmeras digitais.
5. Latitude, contraste, granulação de imagem e definição de traço.
6. Luz natural e luz artificial.
7. O flash eletrônico.
8. Noções básicas de luz no estúdio fotográfico.
MÓDULO 2: Informática Aplicada à Fotografia - A ementa do segundo módulo prevê três unidades, que são oferecidas ao longo de quatro meses, concomitantemente com os outros dois módulos. Será reservada uma manhã por semana para cada uma dessas três unidades, a saber:
UNIDADE I
NOÇÕES BÁSICAS DE INFORMÁTICA - Word, Excel, PowerPoint, Access e navegação na internet, com ênfase nos sites de busca (60 horas/aula com o professor Daniel Araújo, especialista em redes).
UNIDADE II
O TRATAMENTO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NO PHOTOSHOP - a utilização do software Adobe Photoshop no ajuste de cores, retoque de imagens e preparação de originais para impressão (60 horas-aula com a designer Évlen Bispo).
UNIDADE III
GERENCIAMENTO DE BANCOS DE IMAGEM NO PORTFOLIO - o emprego do software Portfolio, visando o arquivamento e a veiculação de fotografias em bancos de imagens (60 horas-aula com o fotógrafo Ricardo Funari).
As três disciplinas conjugadas no módulo 2 permitirão o monitoramento de todo o processo de tratamento e inserção das fotografias produzidas pelos alunos ao longo do curso em seus respectivos bancos de imagens e no site do Imagens do Povo.
MÓDULO 3: Fotografia Documental e Fotojornalismo - A ementa do último módulo é apresentada em quatro unidades que aprofundam a questão da fotografia enquanto linguagem autoral, enfatizando: A construção do olhar; A adição de sentidos na edição fotográfica; O trabalho pioneiro de Roger Fenton e Mathew Brady, que registram respectivamente a visão “oficial” (censurada) e a visão “crítica” (cobertura independente) dos conflitos humanos; A fotografia de cunho social de Jacob Riis e Lewis Hine; Erich Salomon e o conceito de candid camera (câmera oculta); A fotografia documental da Farm Security Administration; A epopéia da revista Life (1936); O fotojornalismo independente da agência Magnum (1947); Cartier-Bresson e o “momento decisivo”; Breve histórico do fotojornalismo no Brasil; A fotografia humanista de Sebastião Salgado; Oliviero Toscani e a “subversão” da foto publicitária; Fotojornalismo versus “fotografia editorial” na acepção de Fred Ritchen; A imagem digital e a discussão ética que se impõe a partir da manipulação incontrolada.
UNIDADE I
HISTÓRIA DO FOTOJORNALISMO
01. As fotos “limpas” de Roger Fenton na Criméia (1855) e a introdução da censura na reportagem fotográfica.
02. As fotos “independentes” de Mathew Brady mostram os horrores da Guerra de Secessão (1865). Nasce o marketing político a partir do retrato de Abraham Lincoln utilizado na campanha presidencial norte-americana.
03. As fotografia de Eadward Muybridge e Thomas Edgerton ampliam os estudos sobre o movimento.
04. O “fotoseccionismo” de Alfred Stieglitz garante à fotografia o status de arte.
05. A fotografia de cunho social chega aos jornais no início do século XX com Jacob Riis e Lewis Hine.
06. O “sistema zonal” de Ansel Adams.
07. Erich Salomon traz o flagrante fotográfico para a imprensa alemã na década de 1920.
08. A fotografia documental da Farm Security Administration: Roy Striker, Walker Evans e Dorothea Lange.
09. A popularização da reportagem fotográfica com a revista Life (1936): Robert Capa e Eugene Smith.
10. O fotojornalismo independente da agência Magnum (1947).
11. A imagem digital chega aos jornais na Olimpíada de Los Angeles (1984).
UNIDADE II
O FOTOJORNALISMO NO BRASIL
1. Jean Manzon e a importância da revista O Cruzeiro na década de 50.
2. José Medeiros adota a fotografia de 35 mm (Leica).
3. A Última Hora de Samuel Wainer.
4. Jânio de Freitas introduz a expressão “fotojornalismo” no Jornal do Brasil.
5. O Prêmio Esso “reconhece” a fotografia em 1961.
6. As agências de fotográfos no Brasil, o perfil da F-4 e da Imagens da Terra.
7. O crescimento da postura corporativa na década de 70 e o papel da ARFOC.
8. A mudança no perfil do repórter fotográfico.
UNIDADE III
FOTOGRAFIA EDITORIAL E CRIAÇÃO ARTÍSTICA
1. Cartier-Bresson e o “momento decisivo”.
2. A fotografia engajada de Sebastião Salgado e o conceito de “fenômeno fotográfico”.
3. Oliviero Toscani e a “subversão” da foto publicitária.
4. A progressiva substituição do fotojornalismo pela fotografia editorial.
5. O espaço da arte na documentação fotográfica brasileira: a trajetória dos olhares de Antônio Augusto Fontes, Cláudia Andujar, Miguel Rio Branco e Paula Sampaio, entre outros.
6. A digitalização de imagens e a discussão ética que se impõe.
UNIDADE IV
A EDIÇÃO FOTOGRÁFICA
1. Distinções técnicas e estéticas entre a foto em preto e branco e a foto colorida.
2. A valorização da fotografia pela diagramação.
3. Legenda e texto-legenda.
4. A produção de sentido pela edição.
5. Análise do ensaio fotográfico desenvolvido por cada aluno.
Oficinas de fotografia realizadas
por fotógrafos formados:
. Pinhole / Fotografia Artesanal – Imagens do Povo. Ministradas por Bira Carvalho (fotógrafo formado pela Escola de Fotógrafos Populares)
Fotos: Fabio Caffé
Alunos da Escola de Pin hole – Exposição na Casa Daros.
. Juventude Cidadã / Módulo de Fotografia. Aulas ministradas por Ratão Diniz e AF Rodrigues (fotógrafos formados pela Escola).
. Jovens Urbanos / CENPEC. Aulas ministradas por Fabio Caffé e Rovena Rosa (fotógrafos formados pela Escola).
. I Vitória Foto - Oficina de Fotografia no I Festival de Fotografia de Vitória/ES. Aulas ministradas por Ratão Diniz e Fabio Caffé.
Foto: Stefano Figalo

Ratão Diniz com alunos da oficina de fotografia do I Vitória Foto.
|