“Sem justiça não há paz”

8 de maio de 2013

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© Joana Mazza / Imagens do Povo

 

No último dia 02 de maio, o fotógrafo Bira Carvalho teve sua casa invadida, revistada e parcialmente destruída por policias militares após uma operação ocorrida no conjunto de favelas da Maré. O caso teve uma grande repercussão na mídia e serviu como um grito de alerta aos abusos de autoridade freqüentemente ocorridos nos processos de pré-pacificação em favelas cariocas. Confira abaixo a entrevista que Joana Mazza, coordenadora do Programa Imagens do Povo, fez com Bira, na qual o fotógrafo fala sobre a situação de desrespeito que moradores de favelas estão submetidos e da invisibilidade desses casos por parte das autoridades.

 

Por Joana Mazza


Bira, você é um importante articulador aqui na Maré. Como você percebe esta fase pré-pacificação?

Vejo com muita crítica, sabendo que há pontos positivos, como o fim da guerra. Mas talvez seja uma utopia minha, pois o que eu achava que ia diminuir relativo à violência armada já sabemos que aumentou em algumas favelas pacificadas.

Entendo que está havendo a entrada de um grupo armado e a saída de outro. Então, o que está ocorrendo é uma briga pelo poder deste território e, nesse momento, este espaço está mais violento do que era. Bem no início deste processo, assisti a uma palestra com o comandante Robson¹, quando estava à frente da UPP, que apresentou um estudo sobre o aumento da violência nestas áreas pacificadas. Violências como a corporal, contra a mulher, furto, roubo e assalto. Mas naquele momento ainda não haviam ocorridos confrontos como os que vêm acontecendo agora. Então, onde não há justiça, não tem como haver paz.

E de qual violência deveríamos falar, a armada ou a falta de direitos? Por que esta última se perpetua.

 

Você poderia detalhar o que aconteceu no dia 02 de maio?

Eu estava com o fotógrafo Giorgio Palmeira², e ele queria fazer uma matéria justamente sobre o processo de pré-pacificação e como o Estado age nestes espaços. Desde a manhã eu sabia que estava ocorrendo operação policial, mas fomos à casa de uma fotógrafa amiga para entrevistá-la. Nós encontramos ela com a casa toda trancada, porta, janelas e cortinas fechadas. E como ela estava sozinha, ela não acendia nem a luz. Parte da matéria que o Giorgio está produzindo é sobre esse medo que os moradores de favelas sentem. Ficamos então conversando sobre estas questões e, nesse momento, apareceram diversos moradores avisando que estavam revistando várias casas na minha rua. Daí eu voltei para casa, mas quando cheguei lá vi que já tinha sido arrombada. As minhas coisas estavam reviradas e a casa estava com um cheiro de gás muito forte, pois eles derrubaram até o fogão e desconectaram a mangueira do botijão. Estava tudo jogado, roupas no chão, câmera dentro da privada, lente quebrada… tem coisa que ainda não sei nem onde está, pois ainda não consegui arrumar direito. Eu estava com a outra máquina e tive a mesma reação de quando se dá uma topada e um grito em seguida, mas, nesse caso, a minha reação foi fotografar³ e postar nas redes sociais. Quando estava saindo, me deparei com um grupo da polícia trazendo um jovem preso. Quando o policial viu a minha mochila, me pediu para revistá-la. Eu disse: “Pode, mas olha, tem um IPAD, um Laptop e mais uma câmera para quebrar”. Quando eu falei sobre esse material, ele perguntou: “Você trabalha?”, como quem diz “Você tem condição de comprar isso?”. Falei para ele: “Poxa, você se arrasou! Sou fotógrafo, saí este ano da direção do projeto Luta pela Paz para poder estudar, assim como da direção da Vila Olímpica. Sou fotógrafo do Imagens do Povo, dou aula na OAB sobre mediação de conflito e já dei aula para o magistério. No automático ele fecha a minha bolsa e avisa que o meu dinheiro estava ali.

O que mais me deixa indignado é saber sobre casos como o da senhora que veio me relatar a invasão na casa dela, quando a filha havia saído para ter um filho e jogaram todas as coisas das crianças fora, no chão – então nem roupa ela tinha para sair do hospital -, e o major que estava comigo (estava fazendo perícia na minha casa) na hora nem pegou o nome da pessoa e ainda completou dizendo que só estava ali por conta da repercussão do meu caso.

Eu estou recebendo agradecimento de pessoas de outras favelas, como a Vila Aliança e Rocinha. Alguns fotógrafos queriam fazer um ato na Zona Sul, mas eu falei que o quê aconteceu comigo acontece todo dia em alguma favela do Rio de Janeiro, é uma prática freqüente. Então eu recusei o ato. Eu não recusei ganhar uma nova máquina, mas se esse foco cair só sobre mim vai ser muito pior do que a covardia dos que arrombaram a minha porta.

 

Existe alguma articulação dos moradores para enfrentar este processo?

Dos moradores não, eu vejo nas instituições⁴. O morador sofreu violência por mais de 100 anos e essa violência deixou marcas profundas. Por exemplo, o delegado disse que foi a primeira vez que ele foi fazer perícia devido a um arrombamento em favelas. Então, quando apareceu a mídia neste caso, a coisa realmente aconteceu. Mas e os outros? No mesmo dia aconteceram mais 16 casos, no mínimo. Um garoto de 16 anos apanhou dentro de casa. Eu soube de uma menina que estava dormindo e os policiais entraram na casa com chave-mestra, puxaram a coberta dela e ela estava seminua. Eu fiquei muito chocado.

 

Como você irá recuperar os seus bens?

Eu sou “guerreirão”, não vou me abater. Eu trabalho e vou comprar tudo de novo. O que mais me abateu neste momento não foi a máquina quebrada, o fogão, foi o desrespeito ao morador de favela. É o desrespeito do Estado, é o desrespeito da imprensa que finge não ver.

 

*¹ Fundador do Fotógrafos sem Fronteira(FotografiSenzaFrontiere);

*² As primeiras imagens divulgadas no facebook eram do próprio Bira;

*³ O Observatório de Favelas, a Redes da Maré e a Anistia Internacional têm uma campanha em conjunto chamada “Somos da Maré e Temos Direitos”, voltada para a garantia dos direitos dos moradores e para a prevenção contra abusos e ações desrespeitosas por parte das forças policiais;

*⁴ Cel. Robson Rodrigues da Silva é Chefe do Estado-Maior Administrativo do Rio de Janeiro.

 

 

 

 

dministrativo do Rio de Janeiro.

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